sexta-feira, junho 14, 2013

Autocrítica

Fiz uma autocrítica e eu, que não sou classe média, percebi que o barulho ainda está pouco. Tem gente precisando ver sua própria classe envolvida nas manifestações para se sentir parte da solução. Enquanto isso... vai sendo problema aí, vai.
Não são os 20 ou 30 centavos DE CADA UM DOS BRASILEIRO QUE ANDAM DE ÔNIBUS que incomodam. E, mesmo que fossem, seria o direito de não pagar ainda mais por tão pouco. Mas o barulho é pelo que vem sendo aceito, a quantidade de desmandos e como estão sendo aceitos. Falar de "ausência de causa" no Brasil é atropelar toda a NOSSA história de corrupção é desconhecer NOSSA realidade de injustiça. Pois eu digo que QUEM TEM PODER de mídia, de informação, de abrir os olhos da população e dos mais carentes deveria sentir-se na obrigação cidadã de ir às ruas. Se fizéssemos soma de cada imposto indevido, da PEC 37 (¬¬'), do aumento das passagens no transporte coletivo, má remuneração de policiais, de professores, na carência de educação (E aqui eu falo dos deveres da FAMÍLIA, da escola e dos governantes) veríamos que não é ausência de causa, é excesso! Não é pouco, é muito. Vamos abrir os olhos?! Vamos acordar?!  Parabéns à classe média que "não precisa" desses 20 ou 30 centavos e foi se manifestar. Parabéns ao policial que soube proteger as vidas, mesmo sendo coagido pelos governantes (E mesmo sendo minoria entre os seus colegas). Parabéns ao governante que sabe que deve servir ao povo e não o contrário (Democracia). Parabéns ao maior que se compadece e protege o menor. Parabéns ao povo que, como um todo, não vai mais aceitar 20 ou 30 anos de corrupção disfarçada em todos os sentidos, tirando o que é NOSSO e sempre fazendo pouco.

"A autocrítica  refere-se à capacidade interna do indivíduo (ou, coletivamente, de uma sociedade ou instituição  de realizar uma crítica de si mesmo. Ela implica na análise de seus atos, da sua maneira de agir, dos erros cometidos e das possibilidades de realizar uma autocorreção. Desta forma o sujeito se aprimora."

Transição

A arte de engolir o choro
botar um sorriso
e caminhar

A habilidade de cuidar da dor do outro
curando, assim,
sua própria dor

Seguir em frente,
acreditando mais nas ações
que nas palavras

Abandonar a defensiva,
pois passaram os tempos
de traição, e medo

Despir-se da decepção
para despistar
olhares de crítica

O período de dormência passou
voltar a ser quem é
e cantarolar, dançar

com seus passos firmes
Com seus abraços fortes,
pois a serenidade lhe acompanha

O medo, a raiva, a ansiedade
passaram
A confiança, a alegria, a paz
voltaram

E desafiam,
quem quiser,
a uma conversa aberta
sobre

Verdade.

domingo, junho 02, 2013

Tanta coisa pra cair

Tanta coisa pra cair:
o preço
do chocolate
da passagem de ônibus
da entrada no cinema
a máscara dos falsos amigos

mas não,
cai a internet
cai o peito
cai a bunda
a energia
o pão com a manteiga pra baixo!

Poderia cair o preço
do imposto
da casa própria
o preço dos livros
o pedágio
o bandido

mas caem
as lágrimas
o conteúdo não estudado pra prova
cai o nível
cai a qualidade
cai a coragem do estudante

O político corrupto não cai
cai mais um imposto no meu salário
cai o avião com inocentes
não cai o jatinho do contrabandista...

e o feriado cai no fim de semana!

sábado, junho 01, 2013

Inacabado

Quis morrer, quis matar

Sentiu a boca seca e a garganta doer

tanta ira explodia no seu coração

os olhos borrados de rímel, lápis e lágrimas

sentiu nojo da situação

era como se sua alma se partisse

um nó apertado a sufocava 

era um grito rasgando sua mente

era uma chuva de raios

era a dor 

era luto

era vingança

todas as dores do mundo em si

cambaleou até a cozinha 

pegou uma bebida

virou a garrafa 

mas a sede era de contar a todos

a sua dor

Pés no chão, acordados. Cabeça nas nuvens, sonhando: nem era noite, nem era dia! Era peixe fora d'água e seu coração se afogando...

quinta-feira, maio 30, 2013

Se quer saber...

eu sou feliz
dadas as circunstâncias,
os tropeços,
as decepções

eu sou feliz

Tenho um amor próprio
gigante
sou uma mulher pouco experiente
em guerrilhas amorosas,
Mas extremamente estudada nestes aspectos

(Contribuições de minhas amigas, que sempre partilharam suas experiências comigo)

Tenho isso também, as pessoas confiam em mim!
E é real e verdadeiro, nunca as traí!
sou um confessionário de primeira

além dessas virtudes
eu sou extremamente preocupada e dedicada com os que eu amo
se você não sente isso,
desculpe, mas eu não te amo.

Tenho defeitos horrendos, medo de que esses que eu amo
deixem minha vida sem saber disso, por isso, eu falo, e faço
e me dedico da maneira mais forte e sincera.

Se quer saber...

Eu sou muito, muito mais, ser quieta, calada
cautelosa
e proteger, dessa maneira, os sentimentos e quem eu amo

Ando inspirada com toda a correria que me afoga
me afogo na corda bamba dos sentimentos, dia após dia, ano após ano.
Ando escrava da responsabilidade de ser, apenas.

Se quer saber...
sou emburrada TODOS OS DIAS contra as rochas da indiferença
e sou mulher
sou amiga
sou professora
sou filha cuidadosa

Se quer saber...
já disseram que sou anjo,
mas esquecem que, como bom anjo, jamais temeria uma grande batalha,
mesmo que seja contra o demônio.

Se quer saber...

domingo, maio 05, 2013

E se eu pudesse, escolheria

Não sentir ciúmes
Não sentir saudades
Não sentir medo de perder 

Não seria insegura
Não seria controladora
Não amaria você!

domingo, abril 14, 2013

Monólogo

" - Tem grade.
- Mas tem verde.
- Tem muito barulho, estamos no centro da cidade.
- Mas tem barulho de passarinho também. Choveu, tem um cheirinho de flor no ar!

Essa era a briga diária dos dois "eus".

Manhãs com esperança

Todos os dias as folhas da palmeira, que ficava na porta do escritório, refletiam dentro da sua xícara de café. Só para dizer: Bom dia, olhe para a janela!

E queria transcender, partir.
Mas quando se fala em mudança
quem sempre esteve ao seu lado pode se ofender.

Olhar todos os dias para aquela janela
cheia de grades
Só fazia crescer a fome de li-ber-da-de.

Palavra difícil!

Camufla a verdade
E seu problema mais urgente
É o café que esfriou.

Os Beijos


Beijo no rosto
Selinho assustado
Beijo molhado
De língua

Chupão!

Beijos demorados
Beijo com abraço apertado
Beijoca, beijinho
Beijão

Beijinho rápido!

Beijo no ombro
Beijo na mão
Beijo no joelho
Beijo no pé, ao tirar a sandália.

Beijo de paz!

Mas com você, meu bem, aprendi que as nossas
Mordidas
Significam amor!

Dois mil e doze,


Goiânia, 30 de Dezembro de 2012.
Dois mil e doze,
Esse ano eu não comi panetones, nenhum pedacinho. Esse ano eu não comi rabanada ou leitoa assada. Esse ano eu não tomei vinho, não vi os fogos de artifício e nem dei abraço de “feliz natal”.
Disseram que esse ano o mundo acabaria, mas não acabou. Nesse ano eu me decepcionei com quem eu imaginava ser intocável, acima de qualquer suspeita, a melhor pessoa do mundo. Esse ano eu também me descobri como ser humano fraco, capaz de sentir ódio. Eu me vi amando e, ainda tremo de pensar o contrário, me vi amada! Não como filha, ou irmã, ou amiga, mas como mulher.
Trabalhei muito. Não estudei nem chorei como de costume. Dormi pouco. Me organizei mais. Me amei mais. Quase não escrevi, também.
Me amei mais. Me dei conta do quanto gosto de ser verdadeira, de ser honesta. Percebi, esse ano, que não é dever das pessoas de quem gosto e por quem me dedico, fazer o mesmo por mim, muitas delas, ainda, vão usar todo esse amor e toda essa dedicação para si mesmas, tirando todo o proveito possível e ainda se insultarão se eu, por fadiga, não as quiser mais tão perto.
Esse ano eu descobri que a saudade, muitas vezes, não tem jeito. Mas que quando ela tem jeito, pode ser a sensação mais doce do mundo, mesmo que seja uma saudade de minutos, matada por um sms.
Descobri que ouvir um “eu amo você” de uma criança pode aquecer o coração como o sol. E, falando em sol, descobri que ele pode brilhar de várias maneiras: na gargalhada da gente, no reencontro de uma pessoa que a gente não vê há anos, no abraço de uma pessoa amada que procura te orientar, na fúria contra alguém que nos decepciona, na calmaria do toque de um amigo que procura nos acalmar.
Esse ano eu também não comi ovos de páscoa. Esse ano eu não enchi a cara, não bebi até cair. Esse ano eu não dancei até perder as forças.
Pensando bem o mundo, em dois mil e doze, acabou sim. O mundo de uma pessoa que acreditava que “se você é bom, o mundo será para você”, como recompensa. E, falando nisso, esse ano minha família ficou de luto, da maneira mais cruel e injusta que pode acontecer. Pessoas morrem, mas serem assassinadas, sem explicação, por inveja ou recalque? Vai continuar essa interrogação para sempre com a minha família.
Em dois mil e doze eu aprendi que se você tiver que ser bom, deverá ser por si mesmo, independente do resto do mundo, do cosmo, ou do resto, só por você.
Esse ano eu fui madrinha de casamento, outras duas vezes, mas agora, das minhas melhores amigas.
Então, o mundo em dois mil e doze acabou mesmo, o mundo das crianças que conviveram comigo, crescemos, não de um ano para o outro, mas ano após ano.
Vi o mais gordinho dos gordinhos comer salada, perder peso e querer sua vida saudável! Vi o gay se assumir para a família. Vi o meu medo correr de mim porta a fora. Esse ano eu vi o vacilão pedir desculpas e a piriguete amar de verdade, capaz de abandonar um esquema legal por uma pessoa correta.
Esse ano eu ganhei momentos lindos, com pessoas simples, humildes, puras, como eu sempre sonhei.
Esse ano eu quis um cachorro, uma bicicleta, economizar dinheiro, emagrecer, engordar. Planejei comprar um apartamento, sair do emprego, me livrar de tudo o que não preciso, organizar a casa. Em dois mil e doze eu não viajei, mas quis aprender alguma arte, (dança, música, canto, pintura, luta), permanecer com o meu namorado.
Esse ano não foi muito diferente dos outros. Foi importante, pois de tudo que vem na vida para ensinar, pela primeira vez, eu aprendi mais com as minhas decepções.
Esse ano eu desejei muito que março começasse, que agosto acabasse e que dezembro chegasse.
Eu contei que não comi chocolates, por gratidão a Deus pelas vitórias desse ano?
Preciso agradecer a esse ano, pela fibra que aprendi a ter, pela saúde daqueles que permanecem na minha vida e minha, é claro. Preciso agradecer a esse ano, por me permitir fazer pelos planos para o ano que vem.
Que os meus amigos que se reproduzem de longe, se acheguem mais, que sua prole seja eternamente abençoada. Que o amigo que formou a sua banda se realize sempre mais para o ano que vem, que o amigo que casou seja muito abençoado em todos os seus relacionamentos e que a amiga que escafedeu-se reapareça, feliz.
Esse ano eu lembrei que sou uma pessoa de poucos amigos, de amigos distantes, velhos, novos, batalhadores, mas poucos, verdadeiros e, principalmente presentes!
Obrigada, Deus, por dois mil e doze.
Atenciosamente,
Kamila Santos de Paula.

Confia

E chore me abraçando
para que eu possa
te cuidar

Calma, querido.
Vai passar!
De amor ninguém morre


Saio do Sério

É sério!
Eu saio do sério e choro.
E caio outra vez no que odeio.
Eu choro!

Eu saio de mim
e fico sem lugar
por segurar o que eu odeio
o choro.

Minha garganta 
minha cabeça 
O meu orgulho
Dor.


domingo, agosto 05, 2012

Quando as pessoas falam de respeito...


Boa parte delas querem apenas dizer: "Veja como eu sou superior". Respeito de verdade é natural, é simples, NÃO DÓI e não precisa ser mencionado. O seu respeito está no bom dia e no aperto de mão que se é capaz de dar a qualquer um. Na boa... você tem diarreia, tártaro, unha encravada e peida como qualquer preto, gay, careca, gordinho, espírita, protestante ou filho da puta que já atrapalhou a vida de alguém no vestibular, na entrada do ônibus, estando do lado de dentro do banheiro enquanto alguém se caga do lado de fora.


http://www.youtube.com/watch?v=uElwCENBDJQ

quarta-feira, maio 18, 2011

"As flores, os amores, os temores e os calores!"

Xote. Não, tango.



E foi caminhando pela rua
pela qual sempre chegava
que concluiu: "Ele não sabe dançar!"
É isso, só pode ser!
Sorriu.
A resposta sempre esteve à sua frente, mas só agora faz sentido.
Aquela relação era, toda ela, uma decepção.
A primeira vez que o viu, não gostou.
Ouviu falarem mal dele, detestou.
Mas...

O cara especial, coitado, só não sabia dançar.

terça-feira, maio 03, 2011

VIVA!

Tão viva...
que pode sentir o gosto do sol
quando abre a boca para uma gargalhada
Tão viva...
que a manhã faz doer seu corpo inteiro
enquanto a noite é um carinho, um afago
Viva!
Essa alegria de experimentar
Viva!
Essa alegria de se apaixonar
pelo que é
I N APAIXONÁVEL!
Viva!
O sabor
A saudade
Os amigos
A boa música
Viva!
O sentir frio no estômago...
hummmm
Viva!
O calafrio de uma lembrança ruim...
Argh!
Viva!
As confidências dos corações partidos
que se encontram para desabafar...
Viva!
Toda essa fé que se renova em uma esperança sadia de paz!
Viva!
o amor de irmãos não biológicos
Viva!
o perdão
o amor
os bons filmes
os bons livros
Viva!
E traga de volta à vida tudo aquilo que lembre que você está
VIVA!

quarta-feira, abril 13, 2011

Monólogo em um dia estranho.

Sentir debaixo dos pés descalços aquela grama foi realmente tranquilizante, como pode uma sensação tão maravilhosa com algo tão... Simples! Que frescor! Isso com certeza nunca aconteceu antes! Pés na grama e caminhando, sentindo as diferenças do terreno. Pés na grama.

Que bom olhar as folhinhas por entre os dedos e tão frias! Um sorriso inevitável parece transparecer essa sensação maravilhosa. O ar, indeciso, fica entre brisa e vento, frescos, com um aroma doce de fruto ou flor toca o rosto e chamar a atenção para além do chão: o horizonte.

À frente uma espécie de varanda, um salão envolto de cortinas. “quero ver de perto”. O lugar está todo tomado pelo sol: “que varanda linda!” parece que a noite jamais tivera a chance de entrar ali. “Quero ver de perto”, “quero entrar”, “quero tocar o tecido, ver o que há lá dentro”.

O tecido delicado, amarelado, fino, dança no ritmo do vento. O lugar todo parece mais uma caixa de vidro, com piso verde. No centro uma mesa rústica e um vaso com flores amarelas e azuis, em todos os tons imagináveis.

“Mas onde estou?!” Olha em volta e ao longe o som de um bip...

O despertador impede de descobrir que lugar era aquele.

Abre os olhos, rola na cama. “AH! Que preguiça, mas já é dia?” trava o despertador, confirma o horário, “07:30!”

Só então percebe que estava dormindo com a cabeça para os pés da cama. Não lembrava se havia se deitado neste sentido, mas não é normal acordar assim, com certeza, não.

- Que dor de cabeça! Que sensação de fraqueza, mas eu não bebi. Ontem foi quarta feira.

Café da manhã, bolo de queijo, leite com café enquanto degusta o preto café, doce e amargo, confere um desenho na TV, escovar os dentes e computador. O projeto precisa ficar pronto hoje: Ensaio sobre a cegueira. Análise do filme, leitura da obra de José Saramago.

A casa estava toda iluminada, mês de abril e que calor!

Um bom banho para refrescar: E se lembra de uma conversa que tivera no dia anterior com uma amiga que afirmou: “- Você não é mais a mesma pessoa, está completamente diferente e distante”. Ora, que a diferença e a mudança incomodam, não é novidade, mas também não é novidade que elas ocorram, pensou.

Almoço com jornal na TV.

- Meu Deus! Meu país, as crianças de lá? Sete de abril de 2011, crianças assassinadas dentro de uma escola em Realengo, RJ. Minha infância não era assim, o Brasil era diferente para as crianças: "A cidade da minha infância tem as portas abertas para a esperança, tem os braços abertos para o amor tem o sol mais lindo ao se pôr e tem a família mais amada do Brasil, a cidade da minha infância tem o céu mais estrelado, tinha príncipe e princesas encantados e as manhãs em cor de anil." Sorriu.

Refletiu sobre o que estava acontecendo na sua terra natal e sobre o que viveu em sua própria infância. Lembrou da avó que já se foi, boneca de pano, bola de futebol, a queda da goiabeira, o primeiro dia de aula, sorvete de morango com cobertura de chocolate, a surra por ter quebrado algo ou batido em alguém, fiscalizou os momentos mais “perigosos” de quando era uma criança e não se lembrou de sequer uma arma.

Atrasou-se para o trabalho, correu. Chegou. Projeto pronto, reunião. Fim do dia. Atravessa a cidade e o pensamento fixo na conversa com a amiga, no sonho, nas notícias do jornal, na proposta de voltar para trabalhar no Brasil. O sinal fecha e as luzes se misturam, entorpecem os olhos, a garganta começa a doer e se lembra do vizinho que se jogou do alto do prédio, caiu na piscina, está em coma, Mike, o rapaz dos sonhos.

A volta para casa parecia interminável. Será que intermináveis eram os pensamentos? Sorri. “Que bom”. “Tomara que não terminem antes de chegar em casa.” “Tomara que nunca terminem, nunca.”

Que sentimento de vazio. Só, dentro do carro, com os pensamentos, lembranças, música, "I'm lonely in London, London is lovely so

I cross the streets without fear
Everybody keeps the way clear
I know I know no one here to say hello" ainda tão só e refletiu sobre a letra. "Estou solitário em Londres, Londres é amável então, cruzo as ruas sem medos, todo mundo deixa o caminho livre, sei que não conheço ninguém aqui prá dizer olá" . O estranho é que sentir isso não parece tão ruim como antigamente, realmente, acho que mudei. “Desculpe por chegar aqui e não encontrar a pessoa que conheceu há anos”. É o que deveria ter dito para Sara. “Eu jamais pretendi mudar, o tempo fez isso comigo, as decepções fizeram isso comigo, os sentimentos fizeram isso comigo, o trabalho, as mortes, os estudos, os amores... os desamores e se realmente se sente mal com isso, me perdoe.” O problema maior era o sentimento que sempre estava no lugar errado, inadequadamente fora do espaço, momento, sentimento ideal.

O sinal fecha. Uma chuva começa.

“A chuva cai lá fora
Não com a mesma intensidade
que cai aqui dentro.
Dos meus olhos,
Relâmpagos.
Da minha face
Rios que transbordam,
Trombas d'água,
Enxurradas que alagam.
Do meu coração
Trovões que estremecem
as paredes do meu peito.
A chuva cai lá fora.
Mas a tempestade
está aqui dentro.
Da minha alma
ventos a mil por hora.
As minhas mãos
mais geladas que o granizo.
A chuva para
lá fora.
Como toda chuva de verão.
Agora, observo os estragos
Passageiros como a chuva
que caía lá fora
Mas a tempestade aqui dentro
parece eterna.”

Sorri. “Lembrei por inteiro”. Isso continua igual, as tempestades. “Não é fácil mudar, ninguém quer e geralmente as mudanças são forçadas, dolorosas e, mesmo depois de muito sofrimento, podem não ser definitivas faz-se necessário voltar atrás, o que pode ser ainda mais doloroso.” E Cantarola:

“Quando a ida não é boa
A volta não pode prestar
Não tenho medo de seguir
Mas tenho medo de voltar”

Faltam apenas seis quadras. Estou chegando em casa. Pega o celular, busca na agenda, letra “S” do teclado, pronto.

- Alô, Sara? Olha, eu já fui e já voltei tantas vezes nas minhas mudanças. Saiba que a candura, a doçura, o amor, não se foram. Saiba que os cuidados e as preocupações nunca me deixaram. O que acontece é uma necessidade imensa de conter, de proteger a mim e aos que eu amo. Desculpa... Tá ouvindo? Sara?

Quando chega à esquina não para, está olhando para a tela do celular. “Será que a ligação caiu?” Atravessou sem olhar. Um farol ilumina todo o carro. Um som arrepiante de freada. Era um caminhão, carregado de carne, mas disso não foi possível ter certeza. Um baque pôde ser ouvido pelas próximas três quadras. O caminhão tomba para o lado esquerdo e o carro para o lado direito. Um líquido mancha de vermelho parte da pista. O som do carro ainda está ligado e a voz de Cartola, meio rouca, começa:

“Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar...”

Respiração difícil. Lembra do projeto, da análise que foi aceita e será publicada. “Uma cegueira branca, leitosa, e rostos opacos a sua frente”. Ou será tudo por causa da luz forte em seus olhos?

“Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és”

Curiosos. Ambulância. Viatura. Lembra do sonho que teve na noite passada. “Parece que acenderam todas as luzes”.

“Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho”

Lembra que seu cachorro está no apartamento. Lembra que mora só.


“Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó”

Lembra do vizinho, o rapaz dos sonhos. Lembra da varanda do seu sonho. Ele está no hospital mais próximo. Ele está em coma. Lembra da varanda do seu sonho. “É para onde eu irei.”

“Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo,
Abismo que cavaste com os teus pés”.

Kamila de Paula.


terça-feira, abril 05, 2011

Pois quando rima, me fascina!

quinta-feira, março 31, 2011

Vício Infame


Queria eu inebriar você

Como a doce taça me inebria agora

Queria eu saborear você

Como o vinho doce que saboreio agora

Poderia não perder você?

Não esgotar você?

Não evaporar você?

Se não te inebrio nem saboreio

Se não passo por todo o processo

Por que a parte ruim tem que ser idêntica?

Beijos e abraços que me embriagaram

A ressaca de você dói n’alma, no peito

Me abala no espelho

No qual procuro a imagem que

Não é a minha,

Mas habita em mim.